Têm mais de 55 anos e uma vida de trabalho em cima. Hoje estão desempregados. São homens e mulheres comuns que o mercado de trabalho atirou para a margem.

Tornei-me
o Uber da
família

Tornei-me
o Uber
da família

A respiração ouve-se ao longe, é ofegante, como se estivesse em constante apneia.

Antes de ter uma carreira promissora na área do retalho, antes de ser tornar num homem que analisa o mundo a partir dos números, Rui Paupério foi jogador de hóquei em patins. As medalhas desse tempo, de um tempo em que era jovem, guarda-as num saco de plástico preto que mantém fechado numa gaveta. Como quem abafa uma grande paixão: demasiado vertiginosa para nutrir de oxigénio, demasiado arrebatadora para ser recordada.

Tem 60 anos e há um que está desempregado. Vivia freneticamente, mas acabou por se habituar a não ter stresses. Só se chateia quando o obrigam a fazer de motorista mais vezes do que as combinadas.

Os primeiros dois meses desempregado foram difíceis. Considerava-me um intruso: elas tinham uma rotina e eu tinha outra. Não foi fácil nem para mim, nem para a Cristina, nem para a minha filha Beatriz. Estava acostumado a, de segunda a sexta, não ter ninguém a chatear-me a cabeça – trabalhava, ia onde queria, deitava-me às horas que queria. E elas a mesma coisa.

Lentamente, as coisas tiveram de mudar, passei a ajudar aquilo que nunca ajudei.

Lentamente, as coisas tiveram de mudar, passei a ajudar aquilo que nunca ajudei.

Não chega só ganhar dinheiro, é preciso também tratar da lida da casa. A Cristina ir trabalhar, chegar a casa, e ainda ter de cozinhar o jantar, quando eu não tenho nada para fazer o dia todo? Mas não foi fácil, tinha aquela velha máxima: “Sei fazer tudo menos o trabalho doméstico. Não sou doméstica.” Mas rapidamente me entrosei e hoje não tenho problemas.
Não tenho problemas.

É a sogra, é as filhas, é a mulher, é a cadela, é a casa… De manhã, vou levar a Cristina ao emprego e deixo a Beatriz no colégio. Tornei-me o Uber da família: quando é preciso chamam‑me, ando para trás e para a frente.

Tomo o pequeno-almoço no Aramis, sempre a mesma coisa: uma torradinha de pão saloio e um galão ou uma meia de leite. Não pode ser um pequeno-almoço à rico. Depois, vou fazer a minha caminhada no Parque do Covelo e vejo as notícias. À terça, à quarta e à quinta, a Beatriz vem almoçar, à segunda, a Cristina está de folga e tenho o dia todo ocupado, vamos para aqui e para acolá.

Também sou eu quem leva a cadela a passear. Nunca gostei muito de animais, nunca, nunca, nunca, nunca... Pronto, e agora é uma das minhas companhias. Elas são todas muito amigas da Becky, mas sou só eu quem a leva à rua quando chove.

Não sou homem para estar parado, recuperei alguns amigos e, às quintas‑feiras, vamos almoçar à Livração, a Marco de Canaveses, a Castro Sampaio… Também não perco um jogo do FC Porto. Tenho um lugar anual, quando jogam em casa, vou ao estádio, se for fora, vejo na Sport TV.

Quando os meus sogros precisam, também lhes dou apoio. Hoje à tarde, vou levá-los a uma consulta ao hospital. Por isso é que comprámos esta casa, para estarmos mais perto. Eu, que nunca fiz nada em casa, agora faço praticamente tudo. Em casa dos meus pais, a minha falecida mãe levava-me o pequeno-almoço todos os dias à cama. A roupa era a empregada que tratava.

Somos seis rapazes e uma rapariga, todos com um ano de diferença. Jogávamos futebol três contra três, e a minha irmã era o árbitro.

A felicidade, entre aspas, foi que a minha mãe entrou na menopausa aos 33 ou 34 anos, se não, não sei onde é que isto ia parar.

Somos seis rapazes e uma rapariga, todos com um ano de diferença. Jogávamos futebol três contra três, e a minha irmã era o árbitro.

A felicidade, entre aspas, foi que a minha mãe entrou na menopausa aos 33 ou 34 anos, se não, não sei onde é que isto ia parar.

Sou de Valongo – só para ter uma ideia, na autoestrada fica a dez minutos do Porto. A minha família era muito conceituada. Foi o meu trisavô quem montou a fábrica dos chocolates e biscoitos Paupério, que se vê em todo o lado.

O meu avô era um regedor, tem uma rua com o nome dele, a Rua Sousa Paupério. Do lado da minha mãe, eram os Santos Castro – o meu avô fugiu para o Brasil para ganhar dinheiro e nunca mais disse nada. Sempre nos demos todos bem. No lado dos Paupério, fazemos um evento da família todos os setembros, sempre ao domingo, já vai no sétimo.

Aos 18 anos, Rui precisava de dinheiro porque queria tirar a carta. Um desejo que o conduziu para uma vida com que não sonhou, mas que hoje o envaidece.

Sempre fui muito ligado ao desporto. Joguei hóquei em patins durante 30 anos e quando era jovem queria ser professor de Educação Física. Mas, entretanto, tudo mudou. Com 18 anos, comecei a trabalhar nas tintas Barbot para ter dinheiro para a carta de condução.

Ia trabalhar de ténis, barba por fazer, à vontade. O 25 de Abril tinha sido há pouco tempo, se até os tropas andavam de barba porque é que eu não podia? A maneira que o diretor da empresa encontrou para me pôr a vestir bem foi levar-me a uma reunião no Banco Comercial e de Investimentos. Se tivesse um buraquinho, tinha-me enfiado lá dentro: um sítio de mármores, toda a gente de fato e gravata e eu ali de ténis.

Foi a mudança. Isto foi a uma quinta-feira e a minha mãe teve de andar à procura de casacos e gravatas do meu pai para eu ir trabalhar na segunda. Passei a ocupar o cargo de administrador principal e a ganhar 40 contos. Davam-me carro da empresa, depósito cheio, mas o salário nunca aumentava.

Depois quis casar, precisava de mais dinheiro, e mudei-me como administrativo para a Portugel. Foram os primeiros concorrentes da Olá, vieram revolucionar o mercado dos gelados de impulso, aqueles que se comem nas praias... Foi nesta empresa que aprendi a trabalhar com o Lotus 1-2-3, que hoje é o Excel. O mais giro é que, depois, era só dizer ao programa e os cálculos apareciam feitos.

Na altura, aprendi muito. Pagavam bem aos comerciais, mas aos administrativos, como eu, não era suficiente. Foi por isso que saí, em 1990. Queria ganhar mais.

A entrada na Makro, onde ganhou vários prémios como chefe do departamento administrativo, obrigou Rui a ir trabalhar para longe de casa. Sem horários fixos, de manhã à noite. “A gestão familiar ficou mais difícil, não?” Dribla a pergunta e insiste nos feitos profissionais que conquistou, evita falar dos seis anos que esteve separado da mulher, Cristina.

Foi nesta altura, com 31 anos, que abandonei o hóquei. Até aí, treinava praticamente todos os dias, jogava ao fim de semana…

Mudei-me para a Makro a 1 de agosto de 1990, para abrir a loja de Matosinhos a 22 de agosto. Nunca mais me esqueço: na inauguração tinha vestido um fatinho bordô, camisinha branca, gravatinha... todo pipi. Desde as seis da manhã até às dez da noite, havia uma fila compacta de gente a querer entrar na loja.

Quando a loja abriu, nem um computador tinha, fazia os mapas de vendas à mão. Quando me arranjaram o Lotus 1-2-3, numa semana pus tudo em dia, com as fórmulas nas colunas certas. Fui idolatrado: “Obrigado, obrigado, obrigado.” Fazia os mapas, recebia da frente de loja cheques devolvidos e mandava para o advogado, ligava aos clientes a requisitar pagamentos, fazia o trabalho da contabilidade da loja…

Depois, fui convidado para ser chefe do departamento administrativo da Makro de Coimbra. Isso deu-me muito orgulho, perspetivas de crescimento. Tomei a decisão sem falar com a Cristina, era um grande estatuto.

Com ela a trabalhar em Guimarães, eu em Coimbra, muitas vezes só nos encontrávamos ao domingo, porque ao sábado também tinha coisas para fazer. Chegámos à conclusão que era melhor separarmo-nos. Só via a Cláudia, a minha filha mais velha, ao fim de semana.

Com ela a trabalhar em Guimarães, eu em Coimbra, muitas vezes só nos encontrávamos ao domingo, porque ao sábado também tinha coisas para fazer. Chegámos à conclusão que era melhor separarmo-nos. Só via a Cláudia, a minha filha mais velha, ao fim de semana.

Ganhava dinheiro, ganhava muito dinheiro. Compensava financeiramente, mas tirava-me o tempo para a vida do dia a dia. Fiquei ali seis anos, até abrir o Office Center, que hoje é a Staples, para onde me mudei em 1996. Era preciso pagar contas, era assim.

Passei seis anos separado da Cristina. Quando voltámos a juntar-nos, nasceu a Beatriz. Em 2009, quando achava que finalmente vinha para casa, que ia voltar para o Porto, mandaram-me para a equipa de compras da loja da Azambuja. Eram para ser dois meses, foram dez anos. Dez anos a fazer viagens Lisboa-Porto quatro vezes por mês. Foi cansativo.

Até à crise, as multinacionais premiavam quem trabalhava, quem se esforçava. Hoje é tudo diferente. Na cabeça dos jovens trabalhadores, só existem direitos, não existem deveres.

Até à crise, as multinacionais premiavam quem trabalhava, quem se esforçava. Hoje é tudo diferente. Na cabeça dos jovens trabalhadores, só existem direitos, não existem deveres.

Já vi putos de oito anos a ligar ao 112 para fazer queixa dos pais. Já disse às minhas filhas, se isso acontecer, agarro-as e atiro-as pela janela abaixo. E, pronto, aí sim é violência doméstica, podem fazer queixa.

A crise de 2008 afetou muito mais as pessoas da classe média que ganhavam 1000, 1500, 2000 euros, do que as que ganham o ordenado mínimo. Quem ganha o ordenado mínimo, tem as despesas estruturadas para isso, mas quem ganhava 2500 euros na Função Pública e levou com cortes… Mas não vamos entrar aqui no campo da política, porque hoje também já não acredito em político nenhum, o meu tempo da política já passou… Fui votar, voto sempre. Votei sempre no mesmo partido e hei de fazê-lo até morrer. O que se fez nestes últimos quatro anos, qualquer um iria fazer! O tempo difícil foi entre 2011 e 2015. Só que ninguém conseguiu falar aos portugueses, de facto, o trabalho que foi feito. Se não tivesse sido feito, Portugal não tinha dinheiro para nada.

No desemprego, Rui foi obrigado a reduzir o ritmo. Diz que estava cansado, a precisar de parar.
A mudança não foi abrupta, o último ano na empresa já tinha sido passado em modo cruzeiro.

A minha revolta interna contra atitudes e diretrizes superiores começou a ser tanta… era de bradar aos céus. Comecei a ficar desmotivado, o meu chefe chamava-me a atenção: “O que é que se passa? Tu já não és o mesmo?” Sentia-me um chulo da empresa. O meu trabalho estava feito, a máquina estava de tal maneira montada que já não precisava de muita intervenção.

Começou a ouvir-se falar de reestruturações e comecei a pensar que nas costas dos outros vemos as nossas: “De hoje para amanhã isto acaba, vou-me embora e não levo nada.” Queria sair, mas com uma indemnização. Sempre disse que quem me come a carne terá de me roer os ossos. Comecei a auscultar quem decidia: “Já viram quanto podem poupar se puserem um jovem no meu lugar?.” Numa reunião, no início de 2019, ouvi dizer que ia haver outra vez 30 milhões para reestruturação e perguntei: “Não vem nada para Portugal? Estou aqui à espera…” Passado um mês, em março, disseram-me: “Olha, temos luz verde, é para avançar?” Respondi logo: “É já!”

As pessoas quanto mais velhas são, mais jovens querem ser. Nunca tive medo que alguém viesse ocupar o meu lugar. Quem pensar que já sabe tudo, para no tempo e morre. Na primeira curva, aí vais tu…

Mas eu já estava era farto. Depois começaram a vir gajos lá de fora, holandeses que todos os dias marcavam conferências à uma da tarde. Eles almoçavam antes, mas nós cá em Portugal não podíamos, éramos obrigados a ficar nas reuniões.

O início foi difícil, mas agora estou confortável… O último ano e meio já tinha sido em modo cruzeiro. Estou inscrito no Centro de Emprego e tenho de enviar o currículo a três entidades por mês, no mínimo. Chama-se Procura Ativa de Emprego. Dantes eram aqueles carimbos, agora temos de enviar o currículo, mas até pode ser por email. Envia-se, imprime-se e guarda-se. Se me derem um emprego a ganhar o ordenado mínimo, não vou. No fundo de desemprego ganho mais. Com esta idade, dificilmente vou conseguir os níveis salariais a que estou habituado.

A 1 de outubro de 2016, os desempregados deixaram de ter que se apresentar a cada 15 dias nos centros de emprego ou juntas de freguesia, procedimento a que eram obrigados para provar a procura ativa de emprego e, assim, garantir o subsídio de desemprego. Fonte

É o nome comummente usado para referir o Subsídio de Desemprego. Pode receber este subsídio da Segurança Social quem, involuntariamente, deixou de ter um contrato de trabalho pago e está inscrito no centro de emprego. Corresponde a 65% do salário médio recebido no ano anterior à situação de desemprego, podendo variar entre 435,76 e 1089,40 euros, para trabalhadores por contra de outrem. Há regras específicas para trabalhadores independentes, empresários em nome individual e gestores e administradores de empresas. Fonte

Posso ter descontado cinco, seis, sete, oito mil euros, o máximo que vou ganhar no desemprego é 1089 euros. Deram-me 38 meses. E, daqui a dois anos, aos 62, tenho a hipótese de ir para a reforma como desempregado de longa duração, sem penalizações. A reforma já será a média dos melhores cinco anos dos últimos 15. Tirava cerca de 3700 euros líquidos de salário, agora tenho mil, mas antes pagava a renda de uma casa na Azambuja, viagens Lisboa-Porto, almoçava e jantava fora… Gastava muito mais. É preciso fazer contas. Mesmo agora, a Cristina ganha o ordenado mínimo, com os descontos traz para casa 500, 600 euros. Amanhã nasce a minha neta, a Cláudia vai pagar 500 euros numa creche, mais vale a mãe desempregar-se e vir zelar pela neta.

E a independência de Cristina, a importância de ela ter o seu próprio dinheiro? “Não há milagres, não há milagres… Números são números”, insiste Rui.

No futuro, não me imagino a ficar parado. Já tenho um projeto para um restaurante, com dez, 12 mesas no máximo. Trabalhar por encomendas e abrir só à noite, pronto. Se for para abrir ao jantar, posso levantar-me de manhã, nas calmas, e ter a tarde toda para me preparar. Não quero ter um desses sítios do prato do dia, em que se trabalha, trabalha, trabalha, depois vai-se à gaveta e não se vê nada. O preço por cabeça vai ter de ser acima dos 25 euros. Se não, não vale a pena.

No futuro, não me imagino a ficar parado. Já tenho um projeto para um restaurante, com dez, 12 mesas no máximo. Trabalhar por encomendas e abrir só à noite, pronto. Se for para abrir ao jantar, posso levantar-me de manhã, nas calmas, e ter a tarde toda para me preparar. Não quero ter um desses sítios do prato do dia, em que se trabalha, trabalha, trabalha, depois vai-se à gaveta e não se vê nada. O preço por cabeça vai ter de ser acima dos 25 euros. Se não, não vale a pena.

Sempre cozinhei, gosto muito de cozinhar, mas com os meus temperos. As mulheres têm é de ficar fora da cozinha, se não, começam logo a dizer “não ponhas isto que faz mal…” Não vou morrer sem ter o meu próprio restaurante. Até já tenho um nome, vai chamar-se Assado na Lenha. Só falta a localização. É um projeto, pá!

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