Têm mais de 55 anos e uma vida de trabalho em cima. Hoje estão desempregados. São homens e mulheres comuns que o mercado de trabalho atirou para a margem.

Não ter
emprego é
culpa minha,
certo?

Não ter
emprego
é culpa
minha,
certo?

Na casa à beira da estrada, o portão engana. Diz que aqui se criam e treinam pastores alemães, mas faz tempo que os 12 canis estavam cheios, com um par de cães por cela, e eram precisas duas panelas do tamanho de meia pessoa para alimentar os bichos todos.

Alice Maria Carvalho, 57 anos, vive aqui com o marido, no andar de cima da casa dos sogros, nos limites da freguesia de Águas Santas, na Maia.

No fim da entrevista, a senhora disse-me que o cabelo branco não condizia com a minha cara, com o espírito jovem. Gostava do meu currículo, gostava da minha conversa, se calhar, até gostava de mim, mas para um emprego ao balcão, aquela figura não batia certo.

Eu até achei piada àquilo. Foi uma aventura. Nunca na vida tinha pintado o cabelo, nem pensava nisso, sequer. Mas como o trabalho dependia disso, tudo bem. Se quiser que vista uma camisola amarela, eu visto. Se quiser que vista uns calções, eu também visto. Como quer que pinte o cabelo, eu pinto. E pintei.

É engraçado sairmos do cabeleireiro e olharmos para o espelho: “Olha, que diferente estou.” Mas, depois de lavar o cabelo, já não conseguia pô-lo assim com aquelas voltinhas como na cabeleireira. E passadas uma semana ou duas já tinha as brancas a aparecer, ficava muito feio. Andar constantemente atrás da cabeleireira... É um tempo perdido estar ali só a ler uma revista – não me interessa nada a vida dos outros. Então, numas férias, já trabalhava lá na loja de jardinagem há cinco ou seis anos, cheguei a casa e disse:
“Não pinto mais o cabelo!” E rapei-o.



Até me confundiram com um homem. E durante uns tempos, andava constantemente a mudar. Não conseguia ver-me com penteado nenhum.

Toda a vida trabalhei no atendimento ao público. Foi calhando. Aquilo que me aparecia, fazia. Na primeira empresa, trabalhava com máquinas, dentro da fábrica. Era uma empresa de circuitos integrados, de eletrónica. Depois trabalhei numa clínica particular no Porto. Trabalhei em imobiliárias – na recepção também, nunca como vendedora – e no Hospital da Prelada, pouquinho tempo. Ainda montei uma loja dos 300, que na altura havia muitas. Mas aquilo não correu bem. Fui-me virando para o que podia fazer, dada a minha baixa escolaridade, na altura já era baixa…

Agora é considerada ainda mais baixa, não é? Agora quem tem o 12.º ano, já é o mínimo, não é? E eu nem isso tenho.
Larguei no 11.º.

Foi sempre importante dar a cara. Por muito que custe, ou que nos apeteça insultar o cliente, temos que fazer sempre como faria quem nos está a pagar o ordenado. E sempre me dei bem com isso. Nunca fui despedida, foram sempre as empresas a fechar. A única que me mandou embora foi esta última, uma grande superfície de jardinagem na Maia, em 2013.

Agora, já ninguém quer para rececionista uma mulher de 57 anos.



Ainda há uns tempos, a minha filha me disse que ali num café estavam à procura de pessoas para trabalhar. Ela disse que tinha uma pessoa desempregada em casa e o funcionário mandou-a lá ir no dia x, quando estava lá o patrão.

Fui lá nesse dia e o homem olhou‑me de alto a baixo.

– O patrão não veio. Afinal, não veio.

– O patrão não veio. Afinal, não veio.

Como quem diz “não interessas”. Lá só trabalhavam rapariguinhas novinhas, e eu não me enquadro, não é? Já não tenho aquela imagem que seria necessária, mais agradável para atender ao público.

Ora, porquê… Porque acho que há muitas pessoas que podem ocupar essa função melhor do que alguém da minha idade. Sei lá... não sei. Os jovens precisam de ter oportunidades. Vejo pelas minhas filhas que estudaram e só a do meio é que faz aquilo para que estudou.

Não faz muito sentido os jovens investirem em formação e vir uma pessoa, só porque tem mais experiência, ocupar o lugar que trabalharam para ter, para conquistar.

Eu, se não estou a fazer nada, é por culpa minha.

De alguma maneira, falhei na minha evolução profissional. Falhei em não ter estudado mais. Falhei em não ter feito uma formação quando era mais nova, ter ocupado o meu tempo a formar-me em alguma profissão.


Por isso, não ter emprego é culpa minha, certo? Não pode ser de outra pessoa.

Fui deixando a escola aos poucos.

O meu pai nunca admitiu que a minha mãe trabalhasse. Ele era – e é, ainda, mas agora está acamado e com 91 anos, por isso já não manda nada – muito protetor das regras tradicionais da família. A mulher é para estar em casa, a cuidar dos filhos, a cuidar da casa, a esperar que o marido chegue, com o jantarinho feito. O meu pai trabalhava bem e ganhava bem, mas éramos seis em casa.

Era importante para mim ganhar dinheiro. Comecei a namorar e tinha que andar da perna se queria casar e ter filhos e essas coisas normais para a idade. Tinha 18 ou 19 anos quando deixei a escola. Ainda me inscrevi no externato à noite para poder trabalhar de dia, mas não correu bem. Não correu nada bem. Chegava cansada, não me apetecia escola.

Lembro-me do primeiro ordenado que recebi. Foi só de 15 dias e, na altura, já era para aí 30 contos. Achava que tinha um Totoloto no bolso. Partilhei-o com a minha mãe – até casar, sempre partilhei o que ganhava com ela – e, mesmo assim, sentia-me muito poderosa. Fui madrinha da minha sobrinha e comprava-lhe as melhores coisas que havia nas lojas.

Quando casámos, viemos para aqui, para a casa dos meus sogros. A minha sogra vive por baixo – nunca se meteu na minha vida nem em nada, mas eu sempre quis ter outra casa, sair daqui. Mas veio uma filha, e depois outra, e depois outra. E depois os estudos de uma, e de outra, e de outra, e fomos ficando.

Estou mais conformada e, agora então, sem emprego – tenho um trabalhito nuns hotéis a lavar a loiça, mas não é certo, não é? – e com a idade que tenho, já não penso muito nisso. Já estou bem.

Das cerca de 323 mil pessoas desempregadas no terceiro trimestre de 2019, 124 mil (38%) tinham 45 ou mais anos. Fonte

Já estou bem.

Alice ri-se para aliviar a conversa sempre que esta se precipita para algo sério. Fala mais, fala mais rápido. Como quem diz, vamos sair daqui.

Há sonhos que não se concretizaram nem se vão concretizar, não é? Já passei mais de metade da minha vida e não vou, agora no fim, alterar alguma coisa. A vida, a bem dizer, passou.

Mas há uma coisa que me revolta: não nos informam dos direitos que temos. Quando fiquei desempregada, sentia muitas vezes isso. Se temos direito à isenção de taxas moderadoras, por exemplo, porque é que não nos dizem? Porque é que não nos dizem que temos direito a isto, a isto e a isto?

Aos poucos, fui lutando por esses direitos. Sabia que podia ter o rendimento mínimo. Na Segurança Social disseram-me que não, porque as minhas filhas, que ainda viviam cá em casa, ganhavam para me sustentar.

O rendimento mínimo denomina-se atualmente como Rendimento Social de Inserção. É um subsídio atribuído pela Segurança Social a cidadãos considerados em situação de pobreza extrema inscritos no centro de emprego. Os cálculos destes valores variam consoante o agregado familiar. Fonte

Quem é o Estado para as obrigar a isso e para me obrigar a viver à custa delas?

Graças a Deus, elas ganhavam bem – porque estudaram e eu paguei para elas estudarem –, mas não tinha que estar a depender do trabalho delas para fazer o que quer que fosse.

Graças a Deus, elas ganhavam bem – porque estudaram e eu paguei para elas estudarem –, mas não tinha que estar a depender do trabalho delas para fazer o que quer que fosse.

Estive muitas vezes desempregada, mas sempre tentei ganhar o meu dinheiro – para os meus fósforos, como dizia a minha avó. Desde sempre, quis fazer e construir a minha vida à minha custa.





Nunca tinha pensado, mas, se calhar, tenho um bocadinho a imagem da minha avó. Eu e os meus irmãos – tenho uma irmã mais velha e dois mais novos – vivemos uns anos com ela quando éramos pequenos.

A escola era muito longe de casa, então a minha mãe mandava-nos para lá que era pertíssimo. O meu avô era barbeiro, tinha a lojinha dele, mas a minha avó sempre foi muito lutadora, muito fuinhas. Ela fazia calças, vestidos, se fosse preciso fazia bolos, salgadinhos, qualquer coisa para não viver à custa do meu avô.

A minha mãe sempre viveu à custa do meu pai, não é? Embora, o meu pai lhe entregasse tudo o que ganhava e ela é que governava. Mas a minha avó, não. Tinha sempre o pezinho de meia, assim de lado, para as coisinhas dela. O meu avô só lhe dava aquilo que era necessário para a casa e o resto era dele – como homem, era dele.

Hoje, os jovens que vivem em casa dos pais, precisam de trabalho para quê? Para se sentirem independentes, úteis, não é? Na nossa idade também.

A minha roupa, as minhas coisas agora são as minhas filhas ou o meu marido que vão comprar, porque não me sinto bem em gastar aquilo que não é meu. O Natal, para mim, deixou de existir.

Viver à custa dos filhos, não é nada fácil. Não é aquilo que se espera para a vida. Mas vai-se vivendo.

Mas vai-se vivendo.

O desemprego desabituou-me de muita coisa. No princípio, sentia-me em férias. Mas rapidamente me caiu a ficha.

Não tinha muito que fazer, as minhas filhas já estavam todas no fim da faculdade. Estava um bocado perdida – não psicologicamente, mas sentia-me um bocadinho sozinha.




Acordava tarde – o dia tinha 24 horas e eu só aproveitava 12 ou nem isso. Andava aqui de um lado para o outro. Na altura, os meus pais estavam mais tempo em Viana do que aqui. Por isso, eu não tinha ninguém.

"A mente vazia é a oficina do Diabo",

"A mente vazia é a oficina do Diabo", como diz a minha cunhada, que é brasileira.

E é verdade, porque se não tivermos em que pensar, pensamos só em coisas más. Nunca vamos imaginar “ah, agora não tenho que fazer, vou imaginar como será o deserto do Sara ou uma coisa bonita”.

Não, o Diabo vem cá e arranja maneira de nos chatear.

Sem trabalho, não tinha nenhum motivo para me valorizarem. Em casa, ora… Valoriza quem lhe faz a cama? Mas nunca me dei à tristeza, nunca me dei a esse... Como costuma dizer a minha mãe, depressões é para os ricos. Nós não temos tempo para isso.

As obrigações matam-me. “Agora, ficas aqui.” Por obrigação, nem fico aqui nem em lado nenhum. Nem na igreja. Como dantes éramos obrigados a ir à missa… Agora vou quando me apetece.

Era muito constrangedor ir à Junta de Freguesia fazer a apresentação quinzenal. Ia sempre mais revoltada do que o normal.

A 1 de outubro de 2016, os desempregados deixaram de ter que se apresentar a cada 15 dias nos centros de emprego ou juntas de freguesia, procedimento a que eram obrigados para provar a procura ativa de emprego e, assim, garantir o subsídio de desemprego. Fonte

Tinha de ir lá dizer que continuava desempregada, quando toda a gente já sabia. Tinha de consultar a lista de empregos: pedreiros, serralheiros e manobradores de máquinas não sei de quê... Nenhum daqueles empregos era para mim.

Em três anos, só vi duas ofertas que serviam. Já estavam ocupadas quando liguei. De resto, era costureiras de ponto corrido, que nem sei o que isso é... Muitas vezes, olhava para os papéis e corria-os simplesmente, só para a senhora que estava ao balcão ver, mas já sabia que não tinha nada para mim.

A 1 de outubro de 2016, os desempregados deixaram de ter que se apresentar a cada 15 dias nos centros de emprego ou juntas de freguesias, procedimento a que eram obrigados para provar a procura ativa de emprego e, assim, garantir o subsídio de desemprego. Fonte

– Consultou ali as ofertas?
– Sim, sim.

Carimba. Até daqui a 15 dias.

Porquê? São obrigações que as pessoas que nos governam não fazem ideia do que é. É o mesmo que ires presa e ficares com aquela obrigação de dizer à polícia “estou aqui, não fugi”. É a mesma sensação, não é? Eu não tinha feito mal a ninguém nem tinha cometido nenhum crime. Mas agora já não estou prisioneira, já não tenho que dar – como é que se chama? Prova de vida.

Só fui chamada já depois disso. Mandaram-me uma vez uma convocatória para ir à Maia responder a um emprego.

Cheguei lá, era uma sala com mais 30 pessoas e a senhora começa a dizer que era para uma empresa de eletricidade, para França, e que era uma coisa fácil; que eles davam formação e depois nos pagavam a viagem duas vezes por ano para virmos ver a família; que tinha alojamento. No fim, ela disse: “Quem quiser, deixa aqui os dados.”

Fiquei com o papel na mão... até eu fiquei em dúvida. Vou para França? Aprender a montar contadores da luz?

Foi a única vez que me chamaram em quatro anos e meio que estive pelo fundo de desemprego.

É o nome comummente usado para referir o Subsídio de Desemprego. Pode receber este subsídio da Segurança Social quem, involuntariamente, deixou de ter um contrato de trabalho pago e está inscrito no centro de emprego. Corresponde a 65% do salário médio recebido no ano anterior à situação de desemprego, podendo variar entre 435,76 e 1089,40 euros, para trabalhadores por contra de outrem. Há regras específicas para trabalhadores independentes, empresários em nome individual e gestores e administradores de empresas. Fonte

Nessa altura, tentava sair, fazer muitas coisas. Ia muitas vezes para Ermesinde, para o parque com um livro debaixo do braço [Esse Guerra e Paz? É meu, já li mais do que uma vez]. Em casa é que não conseguia ficar.

É muito mais fácil organizar o tempo se estiver a fazer alguma coisa. Se não, sento-me a ver o Facebook e, às tantas, o dia já passou e não fiz nada. É a sensação de ter a vida a passar e não estar a construir nada no mundo para que possa dizer: “Eu passei por aqui.”

Agora consigo fazer isso. Vou todas os dias para o Centro Social de Ermesinde, para um projeto que é a Feira Venda de Saberes.

Comecei logo que fiquei desempregada e ajudou-me muito. Aprendo, ativo o cérebro, ocupo a minha cabeça com alguma coisa que não sejam novelas e coisas assim, que eu não gosto.

Gosto de criar. Não na cozinha: isso é deitar tudo para dentro de uma panela, seguir receitas. Gosto que não haja regras.

Gosto de olhar para uma cadeira desengonçada e dar-lhe uma nova vida. Não é porque as coisas estão velhas ou estragadas que são lixo.

E comecei a dar umas horas numa empresa de trabalho temporário. Comecei no dia 8 de março, Dia da Mulher.

No dia 7, o meu sobrinho, que foi abrir o Brasileira, no Porto, ligou-me a perguntar se podia ir lá sexta e sábado, porque o copeiro tinha ficado doente.

– Tia, não te preocupes, nada de cozinhar.

Foi a sexta, sábado, domingo e segunda. Depois, começaram a chamar-me para outros sítios e nunca mais parei. Não fui a uma entrevista: trabalhei e ponto. Nem conheço quem me emprega, nem eles a mim. Não me avaliaram pela aparência física, só pelo meu trabalho.

Não gosto da cozinha – estar fechada numa cozinha ou num cabeleireiro seria das últimas coisas que faria na vida para ganhar dinheiro. Mas lavar a loiça toda a gente sabe.

Gosto de ter a liberdade de trabalhar quando quero. Não é bem quando quero, mas dizer “sim, naquele dia posso ir trabalhar ou não”.

Se tiver outra coisa para fazer, não vou. Sinto-me livre. Ganho o que quiser ganhar.

E acabado o trabalho, lavo as mãos e venho-me embora fresca e airosa como antes.

Ainda assim, Alice considera-se desempregada. Fala de “quando estava a trabalhar” no passado. Porque agora trabalha, mas nem lhe parece um emprego. Vai quando quer. E essa liberdade é impagável. Já não a trocava por nada.

Aquilo a que chamamos “ir para o emprego”, com um horário de trabalho fixo, já não tenho e consigo organizar melhor a minha vida.

Tenho as feiras para organizar, um sítio para onde posso ir se quiser sair de casa. Uma coisa é sair de casa para ir tomar um café, outra coisa é sair para ir produzir alguma coisa.

É claro que o que ganho não dá para pagar as despesas todas, mas já ajuda. Aquilo que como não como à custa do meu marido. Mas acho que me são dadas muito menos oportunidades do que a outras pessoas. Porque os outros são mais visíveis.

Mas acho que me são dadas muito menos oportunidades do que a outras pessoas. Porque os outros são mais visíveis.

O Estado vê os refugiados; na altura em que andava a estudar, viu os retornados e, depois, os filhos dos retornados. Mas não vê a maior parte das pessoas que precisam.

O pacote de pessoas que estão no desemprego também não é bonito. Mas se entrar numa formação, já não faço parte desse pacote.

É considerado desempregado alguém que não tem um emprego e está imediatamente disponível para trabalhar. Pessoas que se encontrem sem trabalho e estejam integradas em programas especiais de emprego ou formação profissional são consideradas “ocupadas” e não integram o cálculo da taxa de desemprego. Pessoas que se encontrem sem trabalho e, por motivos de saúde, não reúnam condições imediatas para começar a trabalhar são consideradas “indisponíveis temporariamente” e também não integram o cálculo da taxa de desemprego. Fonte

Então, o Governo vem dizer que conseguiu baixar o desemprego não sei quantos por cento e nós sabemos que é falso. É à portuguesinho, calamo-nos e deixamos que eles digam aquilo que realmente lhes apetece dizer.

É considerado desempregado alguém que não tem um emprego e está imediatamente disponível para trabalhar. Pessoas que se encontrem sem trabalho e estejam integradas em programas especiais de emprego ou formação profissional são consideradas “ocupadas” e não integram o cálculo da taxa de desemprego. Pessoas que se encontrem sem trabalho e, por motivos de saúde, não reúnam condições imediatas para começar a trabalhar são consideradas “indisponíveis temporariamente” e também não integram o cálculo da taxa de desemprego. Fonte

Acho que vale a pena lutar, mas lutas pequenas, conforme o meu tamanho. Não vou meter-me numa guerra onde não tenho arma para combater.

Nunca gostei de chamar a atenção – isso desde criança. Nunca gostei que reparassem mais em mim do que nos outros. Sempre fui muito firme nas minhas ideias, mas nunca as impus, percebes? Contentava-me com tudo.



Nem o meu vestido de noiva foi o que queria. Queria um curto, sem estes folhos – nem levei véu nem nada na cabeça. Mas a minha mãe insistiu tanto, que uma menina não podia ir assim que olha… “Que se lixe, quero lá saber.”

Prefiro passar
despercebida.

Passo, faço o que tenho a fazer e sigo viagem, não preciso de agradecimentos nem de medalhas.

O que tenho e o que tinha chega. Chega.

Chega passar.

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