Têm mais de 55 anos e uma vida de trabalho em cima. Hoje estão desempregados. São homens e mulheres comuns que o mercado de trabalho atirou para a margem.

Agora olho
Para as
paredes e
falo com
as paredes

Agora
olho
Para as
paredes
e falo
com as
paredes

Abre-nos a porta de casa, senta-nos à mesa da sala e, sem o desconforto das pessoas que se acabam de conhecer, Guiomar Florindo começa a contar os 63 anos da história da sua vida. Arregala os olhos, faz poucas pausas. Encontra nesta conversa uma fuga ao silêncio que todos os dias a atormenta.

“Está a compreender?” A pergunta sai-lhe em modo automático no final de quase todas as frases.
Como se a vida fosse demasiado complexa para ser compreendida.

Meter a chave à porta e não ter ninguém com quem falar, nem para me ouvir...

Estar desempregada é uma apatia. Digo apatia porque a pessoa para, e eu desde pequenina que trabalho, que gosto de atender clientes. Quando o restaurante começou a servir poucos almoços, dizia “tomara que isto feche, estou aqui e canso-me de não fazer nada”. Hoje só penso "vês, estavas com tanta pressa…" Agora, já me vou adaptando à solidão. Mas, ao fim e ao cabo, a minha história é a de uma pessoa sozinha, e isso é triste.

Hoje só penso “vês, estavas com tanta pressa…”

Agora, já me vou adaptando à solidão.

Mas, ao fim e ao cabo, a minha história é a de uma pessoa sozinha, e isso é triste.

O meu nome é Guiomar da Conceição, mas toda a família me trata por Sãozinha.

Na taberna da minha mãe, à medida que fui crescendo, passei a ser a São. Ainda no outro dia, estive no Cacém e pessoas mais velhas diziam-me: “Então, ó São, então, ó Sãozinha?” Fui para lá pequenina, comecei a trabalhar com nove anos atrás de um balcão a aviar copos de vinho e a tirar cafezinhos de saco. Sempre gostei muito da restauração…

Guiomar é desde que vim morar aqui para a Tapada das Mercês, há 14 anos. E com os patrões – alguns chamam-me D.ª Guiomar, outros Gui. “Vocês não me chamem cá de Dona, isso faz a gente muito velhos. É Gui!”

Estudei até ao 8.º ano, que antigamente era o 4.º ano do Curso Comercial. Trabalhava na taberna à hora de almoço e do jantar e, durante o dia, na retrosaria que a minha mãe me abriu quando deixei de estudar.

Casei a um sábado e na segunda-feira já estava a servir almoços na taberna.

Tinha 19 anos. O vestido de noiva custou três contos, fui comprá-lo a uma loja de noivas muito conhecida que havia em Lisboa, chamada Isabella. Fui com a minha tia porque a minha mãe não podia sair da taberna.

Casei-me no Palácio de Queluz em 1975, divorciei-me em 1982. Estive poucos anos casada.

Ele era do Alentejo e a minha mãe nunca me dava folga para ir à terra dele. Eu passava pouco tempo em casa, porque ou estava na retrosaria ou estava na taberna.

Ora, diga-me só, pessoas que já têm tendência a procurar outras… Ele andava livre como um passarinho. Eram mentiras atrás de mentiras, muitas amantes.

O valor atribuído na reforma depende dos descontos que se fazem para a Segurança Social ao longo da carreira. No caso dos trabalhadores dependentes, o contratado paga 11% do salário e a entidade empregadora 23,75%, cabendo a esta última a entrega das contribuições à Segurança Social. Fonte

Deixei a retrosaria em 1997, quando abri o Café Marta, com o nome da minha filha, na Tapada das Mercês. Até então, nunca tinha feito descontos para a Caixa, era como hoje, toda a gente fugia a pagar impostos. Ao início, a minha mãe dizia: “Não é preciso, o João tem ordenado, se acontecer alguma coisa tens a pensão do teu marido.” Aluguei um espaço, tive de fazer obras, pôr gás canalizado, ter um alvará... Começou bem, porque havia muitas construções à volta, mas depois dava pouco.

O valor atribuído na reforma depende dos descontos que se fazem para a Segurança Social ao longo da carreira. No caso dos trabalhadores dependentes, o contratado paga 11% do salário e a entidade empregadora 23,75%, cabendo a esta última a entrega das contribuições à Segurança Social. Fonte

Saía de casa às seis da manhã e chegava às dez da noite. Nunca consegui tirar um ordenado certo para mim. É muito mais difícil ser patrão do que empregado, são muitos encargos. Fazia as contas todas e dividia pelos 30 dias do mês, quando abria a porta já sabia que ao fim do dia tinha de ter aquele x de lucro para as despesas.

Era muita coisa junta, tudo a correr mal, tudo a correr mal… Nessa altura, pensei em matar-me.

Nessa altura, pensei em matar-me.


Mas depois digo assim: “Então, tenho cá a minha filha e vou-me matar? Não, não pode ser…” Pensei atirar-me para o comboio. Mas depois também pensei: “Então, mas as pessoas vão para o trabalho e o comboio fica ali parado? Vão chegar tarde ao trabalho por minha causa?” É um pensamento ridículo, mas… Isto foi quando o café começou a correr mal, eu tinha uma depressão. Uma depressão, não, que isto agora tudo é depressão, apanhei um princípio de um esgotamento. Mas depois passou. Um problema psicológico é um problema de saúde, mas nós temos de levantar a nossa autoestima. Também não sei como é que isso se faz, mas pronto…

Sempre se deu bem com os patrões. Não guarda raiva nem daquele que diz ter-lhe ficado a dever uma indemnização de sete mil euros. Tinha “bom feitio” e até lhe chegou a oferecer uma viagem à Madeira. Afinal, apesar dos pesares, tratavam-na bem, com dignidade. E, quando isso nos escasseia, assume um valor inestimável.

Depois de ter trespassado a loja, o meu genro tinha conhecimentos e arranjou-me logo um restaurante para ir trabalhar em Lisboa. Chamava-se Great Food e ficava perto da Assembleia da República.

Esse restaurante acabou por fechar e os donos abriram outro aqui, ao pé de mim. Mas, entretanto, esse café também mudou de dono e de sítio, o patrão queria crescer e fomos para um grande armazém em Albarraque. Aí, estive três anos. Era eu e uma ajudante a cozinhar, todos os dias, para 150 pessoas.

Tudo comida tradicional portuguesa! Cá as estrangeiras e essas coisas assim não! Não, porque nunca me dediquei a isso. O caril não é português, mas também fazia um bom caril à moda de Moçambique. É uma maravilha. Não me estou a gabar, os clientes é que diziam… E uma boa cabidela, umas favas à portuguesa… Havia um senhor que dizia que eram as melhores favas do mundo. O que me deixava danada era quando pediam omeletes. Vir ao restaurante e comer uma omelete? Às vezes, chegava à cozinha e dizia tantos nomes feios… porque para uma omelete se poder moldar bem o fogo tem de estar no mínimo, eu tinha de ficar ali ao lado do fogão. Dizia “aquele camelo…” Mas não dizia camelo, dizia aqueles nomes fortes, de alhos e coza-se. Ninguém ouvia e eu desopilava o fígado.

Com a crise, de cento e poucos almoços, passámos para menos de 40 e o restaurante fechou. Fui para o fundo de desemprego, pela primeira vez, em 2011.

É o nome comummente usado para referir o Subsídio de Desemprego. Pode receber este subsídio da Segurança Social quem, involuntariamente, deixou de ter um contrato de trabalho pago e está inscrito no centro de emprego. Corresponde a 65% do salário médio recebido no ano anterior à situação de desemprego, podendo variar entre 435,76 e 1089,40 euros, para trabalhadores por contra de outrem. Há regras específicas para trabalhadores independentes, empresários em nome individual e gestores e administradores de empresas. Fonte

Por mês, tinha de procurar três empregos e de trazer um papel carimbado e assinado como comprovativo.

A 1 de outubro de 2016, os desempregados deixaram de ter que se apresentar a cada 15 dias nos centros de emprego ou juntas de freguesia, procedimento a que eram obrigados para provar a procura ativa de emprego e, assim, garantir o subsídio de desemprego. Fonte

Uma vez, fiquei tão triste… Fui entregar um currículo e disse “Olhe, estou desempregada, aceita o meu currículo?” A pessoa aceitou e, logo de seguida, deitou-o no caixote do lixo. Quando estamos desempregados, também somos chamados para formações. Fiz formações de inglês, francês, computadores, higiene alimentar… Mas é só para fazer número, mais nada. Enquanto fazemos formações, não contamos como desempregados. Servem para passar o tempo, convive-se com outras pessoas, mas não nos ajudam a arranjar emprego.

É considerado desempregado alguém que não tem um emprego e está imediatamente disponível para trabalhar. Pessoas que se encontrem sem trabalho e estejam integradas em programas especiais de emprego ou formação profissional são consideradas “ocupadas” e não integram o cálculo da taxa de desemprego. Pessoas que se encontrem sem trabalho e, por motivos de saúde, não reúnam condições imediatas para começar a trabalhar são consideradas “indisponíveis temporariamente” e também não integram o cálculo da taxa de desemprego. Fonte

Agora, o meu trabalho é cuidar da minha mãe que caiu e partiu o colo do fémur. Vou para lá todos os dias, menos ao fim de semana. Tenho o subsídio de desemprego, mas, com baixa de assistência à família, já não tenho de andar à procura de emprego. O meu sobrinho Diogo apanha-me aqui por volta das oito horas. Tomo o pequeno-almoço, vamos beber um cafezinho e deixa-me em casa da minha irmã, que é onde a minha mãe está a ficar.

É um dever moral, não a vejo com aquele amor de filha… Estou muito ferida, foi uma vida inteira sem carinho. O feitio dela comigo sempre foi “quero, posso e mando”.

A minha mãe escolheu-me o namorado, marcou-me o casamento e fez-me o divórcio.

Mas a culpa não é dela, é minha, porque consenti isso tudo. Uma mãe decidir a vida de uma filha é um peso que não sei explicar. Uma mágoa… uma tristeza… Mas eu já analisei isso há muitos anos, agora é a revolta. Porque é muita coisa junta, muita coisa junta, muita nega… coisas ruins, negativas.

Sou sozinha e divorciada há 37 ou 38 anos. O trauma foi tão grande que nunca mais consegui ter ninguém. Tive de me tornar independente. O meu dia a dia? Levanto‑me, tomo banho, vou ao café, quando não ia para a minha mãe fazia uma caminhada, cozinho um almoço super‑rápido, super mal-feito…

À tarde, fico no Face, mas é nos jogos. Uma vez, fiz um teste e saí de lá, para ver se alguém sentia a minha falta. Achas que alguém sentiu? E à noite a televisão é a minha companhia: vejo o Preço Certo e o Joker. Gosto muito de ver as notícias também.

Antes, costumava sair para fotografar. Ando sempre com a máquina dentro da mala, mas agora não me tem apetecido tirá-la.

Mas isso não pode continuar, tenho de mudar o ritmo, que também me sei analisar. Adoro ver o mar zangado, gosto de ver aquelas ondas, aqueles bateres da água a saltar… Também gostava muito de cinema, mas há muito tempo que não vou. Com o passar dos anos, vamos perdendo a vontade de tudo. Para não me sentir inútil, às vezes, também vejo livros de culinária e, quando tenho dinheiro, vou nessas excursões baratinhas. Gosto de viajar. Viver em casa não é viver. Agora, olho para as paredes e falo com as paredes.

Quando estava a trabalhar, ganhava 900 euros por mês, agora ronda os 435 de subsídio de desemprego e enviaram-me uma carta da Segurança Social a informar que vou passar ao subsequente, que é 80% do que recebo agora. Agora, com esta loucura das casas, o senhorio também já me avisou que tenho de sair até novembro de 2020.

Tem direito ao subsídio social de desemprego subsequente quem já recebeu todas as prestações de subsídio de desemprego a que tinha direito e continue desempregado e inscrito no centro de emprego, com uma média de rendimentos do agregado familiar inferior a 278,89 euros por mês, o equivalente a 80% do indexante dos apoios sociais (348,61 euros). Fonte

Vou para um rés-do-chão que a minha mãe tem alugado no Cacém, mesmo ao lado da retrosaria.

Se vir que a reforma vai ser pequena e tiver de me reformar antes do tempo, pode ser que arranje um part-time, uma coisa qualquer. Até a tomar conta de alguém ou a passar a ferro, não tenho problemas, faço qualquer coisa desde que seja honesta. Não penso no futuro, não posso pensar no futuro. Se começar a pensar… que não posso pagar as despesas, fico em parafuso.

Marta tinha sido apresentada como uma mulher de sucesso, sempre ocupada. A convite da mãe, aparece no segundo dia em que nos encontramos. Guiomar não cabe em si de felicidade: “Quem a viu e quem a vê, a minha filha com paciência para andar aqui comigo.” Falam de trivialidades, da família, de histórias passadas. E partilham, pelo menos, uma filosofia: falar o menos possível dos problemas, reduzir-lhes a importância, enxotá-los antes que penetrem camadas mais profundas.

Tenho uma filha casada que está na casa dela, mas não há espaço para mim. Não tenho ninguém… É a minha filhota, a minha Marta. Temos uma boa relação, mas muito fria, sempre foi assim, é o feitio dela. Vemo-nos pelo Natal e pela Páscoa. Ao sábado, telefono-lhe ou ela telefona-me: “'Tá' tudo bem? 'Tá' tudo bem...”
E pronto, o que é que eu vou fazer?

Fui uma mãe oposta ao que a minha foi para mim. Um dia, a Marta disse-me: “Não te metas na minha vida como deixaste a avó Deolinda meter-se na tua.” Foi há 20 anos e até ao dia de hoje nunca mais dei uma opinião sobre a vida dela.

Gostava de voltar a trabalhar na área da restauração. É uma coisa que deve ter nascido comigo, gosto muito de falar, lidar com o público. Realiza-me. Mas não sei se vai acontecer… vou fazer 64 anos, é muito difícil arranjar emprego. A sociedade não quer pessoas da minha idade atrás de um balcão. Querem novos. Os patrões de agora pensam que já sou velha, mas não me sinto velha.

Quando estamos a trabalhar é tudo muito mais fácil. Trabalhar é fugir à solidão e a parte financeira também é importante, porque precisamos de sobreviver. Acho que as pessoas da minha idade deveriam ter mais oportunidades, mas é assim que as coisas estão feitas. Se não há emprego para os novos, quanto mais para os que estão prestes a reformarem-se. O Estado ignora-nos, ignora-nos! Não olha para nós.

Em outubro, não fui votar porque a ladainha é sempre a mesma, promessas atrás de promessas. Faltam apoios para os mais velhos. Quando acabar o subsídio de desemprego tenho de ir pedir o Rendimento Social de Inserção, porque não me dão a reforma, faltam anos de descontos. O povo manifesta-se, e o que é que se vê? Nada.

É um subsídio atribuído pela Segurança Social a cidadãos considerados em situação de pobreza extrema inscritos no centro de emprego. Os cálculos destes valores variam consoante o agregado familiar. Fonte

Temos de ser positivos. Não me posso deixar ir abaixo, não devo. A gente até pode estar preta cá dentro, mas por fora tem de sorrir.

A minha vida é cheia de problemas e etapas, mas vou superar isto tudo. À noite, fico muito negativa. Mas não posso estar assim, não posso chorar. Não posso chorar. Tenho de conseguir. Tenho de conseguir. Quando se apaga a televisão e vou para a cama, quero esquecer o currículo do passado, mas não consigo.

Tem sido uma vida toda sozinha.

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